A gente se esquece…
Pouco mais de um ano atrás, reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, mostrava, via câmera escondida, as táticas usadas por fornecedores de hospitais para fraudar licitações e “vencer” concorrências públicas no Rio de Janeiro.
Nas conversas gravadas pela reportagem, representantes de empresas falam com naturalidade sobre suborno e fraude como sendo a normalidade, a regra, no ambiente profissional em que atuam. Uma senhora chega a dizer, a modo de justificativa moral, que essa é a “ética do mercado”. A novidade, no caso, nem era o golpe, era ver a canalhice cínica e escancarada, gravada e exposta em via (ou vídeo) pública(o), uma vez que a arte de combinar e fraudar licitações é um dos esportes preferidos dos participantes das nossas chamadas PPPs (Parcerias Público-Privadas), nas quais os parceiros metem a mão no dinheiro público e tudo acaba na privada…
Na ocasião, assistindo ao programa, lembro-me da frase que passou pela minha cabeça e, com certeza, pela cabeça de muita gente: “imagina na Copa…”.
Pois a Copa das Confederações chegou e a gente pode deixar de imaginar. É hora de constatar.
Estádios semiacabados sendo entregues e, em seguida, fechados para reforma. Coberturas desabando, cadeiras soltando-se de suas bases, vazamentos, buracos, remendos. Uma vergonha que só teve uma regra cumprida: quase todos estouraram os orçamentos previstos. Fui ao Mineirão e confirmei: “por fora, bela viola, por dentro, pão borolento…”.
A coisa fica ainda mais absurda quando analisamos os “critérios” para construção e/ou reforma dos estádios da Copa. Em São Paulo, o Timão foi brindado com um estádio novinho em folha, em detrimento do Morumbi, que poderia ser adaptado ao padrão Fifa. Qual o quê. Pra que reformar se podemos construir um ao preço de três?
Dia desses foi inaugurado o belo estádio Mané Garrincha, em Brasília, que após a Copa poderá abrigar o clássico Brasiliense e…? Em Brasília há outro time de futebol registrado na federação?
O que dizer da charmosa Arena Pantanal, em Cuiabá? E a bela Arena da Amazônia, será palco do encontro entre Rio Negro e Solimões, ou abrirá seu gramado para a acirrada disputa entre o Caprichoso e Garantido?
Mas o quadro não se restringe a estádios de futebol feitos ou refeitos a toque de caixa 2. É amplo geral e irrestrito. E a regra é clara, diria o Arnaldo. Obras são licitadas, empresas apresentam propostas, ganha quem oferece melhor preço e condições. Simples assim? Nananinanão… A “ética” do mercado é outra, lembram?
Primeiro as empresas deixam de ser empresas e tornam-se quadrilhas. De concorrentes passam a ser sócias, parceiras, ou, vá lá, cúmplices. Loteiam a obra, fraudam os editais, dividem entre si quem vai ganhar o quê, garantindo que todos ganhem, com exceção, é claro, de quem vai pagar a conta, ou seja, os bestas dos contribuintes. Os números são contados em bilhões.
Os bestas, entre os quais me incluo, foram lembrados no finzinho de maio, como aqueles que trabalharam, até então, para pagar os impostos que sustentam a máquina do Estado em suas três instâncias: federal, estadual e municipal. Em relação à parte que me toca, tenho sido um fiel contribuinte nos últimos 40 anos. Sempre assalariado, não tenho pra onde correr. A facada é direta, no pescoço do meu contracheque, não dá nem pra estrebuchar. E eu lá, bovinamente membro da manada dos contribuintes.
Quem é do ramo diz que, sem pagamento de propina a coisa não anda no Brasil. É da nossa gênese. Nossa origem é corrupta, desde o primeiro homem que aqui desembarcou com Cabral, dizem eles. De fato, nenhuma das empresas que apareceram na citada reportagem parece preocupada com qualquer questão ética. Flagradas, a atitude da maioria delas foi transferir a culpa ao funcionário subalterno envolvido nas negociações. O problema, então, é o brasileiro? Os culpados somos nós, a nossa gênese, o nosso DNA de ladrões?
Corrupção não é privilégio nosso. Há por toda parte. Do sábio Japão à asséptica Suíça. O que temos como diferencial e agravante é a tolerância, a leniência, a falta de indignação em relação a corruptos e corruptores. Confundimos o comum com o normal.
É comum encontramos fraudes em contratos, obras, ladroeiras e gatunagens diversas e frequentes. Nada disso nunca será normal…
Na nossa pasmaceira resignada, falamos muito dos corruptos, denunciamos os políticos, os funcionários, os gatunos que levam os 10%, e nos esquecemos dos corruptores. Eles criam o cenário, o caldo de cultura, a seara onde o corrupto pode crescer e se multiplicar. Eles, os corruptores, recriam as regras, a “ética do mercado” à sua imagem e semelhança. E já que falamos em futebol, os pilantras seguem um paradigma que não pode ter melhor tradução que não a frase famosa do craque Gerson da Copa de 70: “o importante é a gente levar vantagem em tudo, certo?”
Findas as Copas, estaremos às vésperas de mais uma eleição. Boa hora de nos perguntarmos: que vantagem levaremos em tudo isso?
Eduardo Machado
03/06/2013
