A Copa do mundo é nossa…

Com o encerramento das Olimpíadas de Londres os olhos do mundo esportivo voltam-se para os dois próximos grandes eventos globais, ambos envolvendo o esporte que tem mais torcedores apaixonados nos quatro cantos do planeta bola: o futebol. E tudo vai acontecer aqui, na nossa terra brasilis: daqui a um ano, a Copa das Confederações, que nada mais é que um ensaio para o bilionário espetáculo da Copa do Mundo de Futebol, em 2014. E ainda tem a Olimpíada do Rio, em 2016, mas essa fica pra depois. Quero falar do futebol.

Daqui a pouco nossos olhos, ouvidos e corações estarão grudados na telinha, no radinho. Depois do coletivo apronto de 2013, vamos juntos em busca do Hexa! Então, seremos todos, por trinta dias, 200 milhões em ação, ou “a pátria em chuteiras”, como dizia o Nelson Rodrigues.

Os patrocinadores já ocupam espaço nobre na programação, associando seu nome e produto aos craques da seleção.

Pra variar, há uma crise de credibilidade na seleção brasileira. Pior, a crise pode ser de identidade, uma vez que a maioria dos atletas selecionáveis e selecionados joga fora do País. Alguns deles migraram direto do juvenil para times estrangeiros e são ilustres desconhecidos para o torcedor tupiniquim.

Mesmo assim, já há um frenesi tomando conta da nação. O topete do Neymar e a situação do Mano Menezes são mais discutidos que o julgamento do Mensalão. Até no Congresso! “Não é um país sério” diria o General De Gaulle. Penso que, no mínimo, “é um país surpreendente”, capaz de encontrar seu orgulho pátrio num jogo de bola, mesmo em meio a tantas dificuldades e carências.

E eu, que me considero um sujeito adequadamente informado, com minha consciência política em dia, rendo-me ao futebol, à paixão pelo futebol, sem desligar meu senso crítico. Arrisco até palpites, confirmando a tese de que somos um país de técnicos capazes e inteligentes, ao contrário do burro que ocupa, no momento o cargo de treinador na seleção.

Entre as minhas implicâncias destaco a maneira como é organizado o torneio mundial, com apenas seis jogos para se chegar a uma final. Essa disputa de “tiro curto” favorece o estilo de futebol medroso, cauteloso, onde os times têm mais medo de perder que desejo de ganhar.

Talvez por isso seja frequente a crítica que se faz a determinados jogadores que são craques em seus times e medíocres na seleção. É que, na Copa, eles são obrigados a jogar o tal futebol de resultados, medroso, sem arriscar o futebol arte, praticando um ludopédio engessado, onde o gol é mero detalhe.

Outro problema que tenho em Copas do Mundo não enfrento, por exemplo, no campeonato mineiro. Senão, vejamos. Vai que o primeiro jogo do Brasil em 2014 seja contra a Coréia do Norte. Vai que ganha? Quantos coreanos, (e do norte!), eu vou poder zuar? E se a gente cruzar com a Eslovênia?!

Aqui em gramados tupiniquins não há esse problema. Todo dia me encontro com o Ivanildo na portaria do colégio e posso rir da cara dele pela última derrota do Galo, ou ele da minha, pelo vexame do Cruzeiro e estamos conversados.

Discussões futebolísticas a parte, vou insistir, não na filosofia, mas na reflexão. É que, como já disse, sou um católico que tenta, a cada dia, ser mais cristão. E o cristão é aquele que vê as coisas que todo mundo vê, mas de um modo diferente.

E para aguçar meu olhar vou recorrer a um artigo escrito dez anos atrás pelo jornalista Márcio Doti, diretor de Jornalismo da Rádio Itatiaia. À época ele refletia sobre contexto parecido. Então nos preparávamos para a Copa de 2002, que foi jogada na Coréia e no Japão.

Apesar do fuso horário maluco daquela Copa, o país inteiro se mobilizava para acompanhar partidas de futebol às 6 da manhã. Que outro evento seria capaz de provocar tamanho entusiasmo? Márcio Doti se confessava surpreso com tudo isso e ponderava:

“Na verdade, a copa do nosso mundo será disputada em outubro, ou melhor, será decidida em outubro, quando alguns milhões de eleitores vão depositar nas urnas os nomes daqueles que estão em campo há muito tempo, jogando bola de todo jeito. Alguns com classe, com empenho, com garra, outros especializados em bola nas costas, ainda outros que são fantoches de cartolas, enfim, gente de todo tipo, querendo o voto de gente de todo tipo, o que produz resultados rigorosamente assim, de todo tipo… A copa do nosso mundo, lamentavelmente, não produz nem de longe o interesse da copa disputada nos distantes gramados do Oriente. Mesmo considerando jogo de madrugada, durante a semana, 6 horas da manhã, oito e meia, enfim, num horário que tira muito da graça da maioria dos continentes apaixonados pelo jogo da bola, mesmo assim, quem dera que a copa das eleições tivesse pelo menos 10 por cento do interesse que a outra desperta. Do mundial da bola o cidadão torcedor tem muito o que dizer. Sabe os juízes que vão mal, que interferem no resultado do jogo com seus erros. Reconhece os craques, diz a escalação dos times, conta a vida dos jogadores, aprende a falar nomes complicados, enfim, rapidamente domina o quadro, o assunto e vai para as esquinas discutir quem é melhor, quais as chances do Brasil, quem pode ser o ganhador, qual será o mais sério adversário. O interesse patrocina isso. Só o interesse garante esse desempenho, faz de cada um aquele técnico abalizado e competente. Pois é justamente a falta de interesse que transforma o eloquente, competente e entusiasmado cidadão torcedor no apático, desinteressado e despreparado cidadão eleitor, incapaz de entender as jogadas, conhecer os maus juízes, identificar os jogadores bichados, vislumbrar rapidamente os craques, aqueles capazes de marcar os gols do progresso, do desenvolvimento e da justiça social. Em nome de um certo nojo pela política, produto dos escândalos que desfilam a toda hora, o cidadão eleitor afasta-se das arquibancadas, deixa a geral, fica distante, não acompanha, não tenta entender, não quer ver o jogo. E porque não entende, na hora em que é chamado para escalar o seu time, escala mal. E porque escala mal, tem novas decepções, tem que engolir o seu grito de gol. Um dia, quem sabe, vai ser diferente… o cidadão torcedor e o cidadão eleitor serão a mesma pessoa, nas duas copas. Ah, que um dia isso vai acontecer!”.

Este artigo, escrito, como disse, 10 anos atrás, continua tristemente real e atual no que diz respeito a jogadores bichados, cartolas incompetentes e juízes mal intencionados. O julgamento do Mensalão é mero resumo de tudo isso. Mas, teimosos que somos em esperar, mesmo contra toda a esperança, acredito que, devagarinho, caminhamos. Em movimentos tão lentos que, nós, torcedores aflitos, apressados, quase não percebemos. É verdade que a violência continua aí, à nossa porta. É verdade que as máfias especializadas em roubar o chamado ‘dinheiro público’ (que vem a ser o nosso dinheiro), estão aí, ainda à solta. Mas há outros sinais, ainda que tênues, frágeis, que apontam na direção de um outro futuro possível.

Vemos a Imprensa, dentro dos limites impostos por um jogo ainda de muitas cartas marcadas, fazendo o seu papel de informar, denunciar, cobrar providências e soluções. Vemos candidatos que apresentam currículos e não prontuários. Vemos a mobilização do cidadão comum, nas Redes Sociais, criando alternativas de comunicação e informação menos viciadas e comprometidas com seus rabos presos.

E porque vemos teimamos em lutar para que não desapareça a nossa esperança. Que ela continue resistindo à alienação, à indiferença, ao medo, às decepções, aos retrocessos.

Que continuemos nos preparando para ganhar, um dia, talvez com nossos filhos e netos, a verdadeira Copa do nosso Mundo.

Quarenta e dois anos atrás, em 1970, éramos noventa milhões com pouca possibilidade de ação. O Brasil tinha em campo craques como Pelé, Tostão, Rivelino e Gerson, mas vivíamos, no país, o período mais duro do regime militar. Ganhamos a copa, conquistamos o tri, o tetra, o penta e continuamos na luta, em busca de plena liberdade e dignidade para o nosso povo, para nossa História.

Em outubro haverá mais uma rodada da copa do nosso mundo; eleições municipais. O troféu em disputa, mais que o Hexa, é o Presente a ser vivido, matéria prima do Futuro a ser construído.